TURISMO COMUNITÁRIO: PARA ALÉM DO ESTADO E DO MERCADO
Resumo
O turismo de massa, historicamente estruturado a partir da exploração intensiva de
territórios, da apropriação de recursos naturais e da mercantilização de culturas locais,
consolidou-se como paradigma hegemônico da atividade turística global. Esse modelo,
alinhado às lógicas capitalistas de acumulação e expansão, frequentemente
desconsidera as dinâmicas socioculturais dos territórios visitados, contribuindo para
processos de gentrificação, degradação ambiental e apagamento de saberes
tradicionais. Em contraposição a essa lógica, este artigo tem como objetivo analisar o
turismo comunitário autogestionário como uma prática de governança dos bens
comuns, capaz de reconfigurar as relações entre território, sociedade e natureza a partir
de outras racionalidades sociopolíticas. Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa
qualitativa, de caráter teórico-exploratório, baseada em ampla revisão bibliográfica e
análise documental de experiências empíricas no Brasil, como iniciativas indígenas,
quilombolas e redes comunitárias de turismo. Os resultados demonstram que a
autogestão comunitária se estrutura em princípios como o apoio mútuo, a participação
coletiva, a soberania territorial e o controle narrativo sobre os processos turísticos,
promovendo a descolonização do “olhar turístico” e a valorização de cosmologias
próprias. Essas práticas constroem alternativas concretas alinhadas ao paradigma do
“Bem Viver”, que propõe relações de reciprocidade, complementaridade e respeito entre
seres humanos e natureza. Conclui-se que o turismo comunitário autogestionário
configura-se como um verdadeiro laboratório político, no qual se experimentam formas
não hierárquicas de organização social e de gestão dos comuns, desafiando as lógicas
estatais e capitalistas que moldaram a atividade turística e apontando caminhos para
futuros pós-capitalistas.
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