A TEORIA DO BALAIO E A DEFESA DOS MUNDOS PLURAIS.
Resumo
“Tudo junto e misturado” produz um modo de ver o mundo que impede
a existência do plural. Embora diferentes campos teóricos tenham
problematizado os limites das categorias universais e os processos de
invisibilização decorrentes de classificações amplas, ainda são escassas
as abordagens que articulam essa crítica a partir da experiência e do
pensamento Romani. É desse lugar que este trabalho se inscreve.
A Teoria do Balaio, formulada a partir de diálogos internos desenvolvidos
no âmbito da AMSK/Brasil e das experiências acumuladas na incidência
política e na defesa dos direitos dos povos Romani, foi identificada como
um mecanismo de homogeneização que, ao reunir povos distintos sob
uma mesma categoria, apaga diferenças fundamentais, dilui identidades
coletivas e compromete a possibilidade de uma escuta efetiva. No
entanto, é preciso avançar: não se trata apenas de uma prática
classificatória, mas de uma lógica que estrutura formas de pensar, gerir
e interagir com sujeitos coletivos.
A Teoria do Balaio refere-se ao processo pelo qual categorias
institucionais amplas e aparentemente inclusivas agrupam sujeitos
coletivos distintos sob enquadramentos homogêneos, produzindo formas de reconhecimento que podem obscurecer especificidades históricas,
culturais, linguísticas e políticas, comprometendo a autodeterminação e
a efetividade das políticas públicas.
Ao colocar diferentes povos, trajetórias e experiências sob um mesmo
“guarda-chuva”, o balaio não apenas simplifica — ele reordena a
realidade a partir de uma perspectiva externa, transformando sujeitos em
categorias manejáveis. Essa operação cria uma aparência de equidade,
como se todos partilhassem das mesmas condições, necessidades e
desafios,
quando, na verdade, estão situados em histórias
profundamente desiguais e atravessados por marcadores distintos de
pertencimento, exclusão e resistência.
Nesse sentido, o balaio não é neutro: atua como um dispositivo que, ao
não reconhecer — ou ao deliberadamente ignorar — diferenças
históricas, étnicas, culturais, sociais e políticas, produz invisibilização,
silencia vozes específicas, enfraquece reivindicações próprias e dificulta
a formulação de respostas públicas efetivamente justas.
É justamente nesse ponto que a crítica precisa ser tensionada: o
problema do balaio não reside apenas no fato de “juntar tudo”, mas em
negar a existência de sujeitos plurais.
Ao contrário do que sugere a lógica da diversidade enquanto agregação,
os sujeitos não constituem partes intercambiáveis de um todo
homogêneo, mas são formados em relações, territórios, culturas e
histórias que não se deixam reduzir a categorias amplas e
indiferenciadas.
Assim, a partir do pensamento Romani, este trabalho afirma a
pluralidade como princípio ético e político. Reconhecer pessoas plurais
não significa ampliar listas ou incluir novos nomes em categorias já
existentes, mas deslocar o próprio modo de compreender o social: sair de
uma lógica de agregação para uma lógica de relação, na qual as
diferenças não são obstáculos, mas condições fundamentais para a
construção de respostas verdadeiramente equitativas — condição
indispensável para que a noção de diversidade não opere como
apagamento, especialmente no caso dos povos Romani, e para a
afirmação do que aqui se propõe como mundos plurais, entendidos como
espaços éticos, políticos e epistemológicos de existência, escuta e
reconhecimento.
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