Entre Exu e o Diabo: O discurso da “Umbanda ocultista” na literatura e a continuidade da demonização
Between Exu and the Devil: The Discourse of “Occultist Umbanda” in Literature and the Continuity of Demonization
Palavras-chave:
Umbanda, Quimbanda, Exu, OcultismoResumo
Nesta pesquisa analisamos a construção de um campo discursivo que denominamos de “Umbanda ocultista”, formado entre as décadas de 1950 e 1980 por intelectuais umbandistas como Aluízio Fontenelle, Teixeira Neto e José Bittencourt. Esses autores, influenciados por correntes esotéricas europeias e pela literatura ocultista de Eliphas Levi, elaboraram narrativas que associaram Exu ao Diabo cristão, reforçando a tradição de demonização dessa entidade presente desde os relatos coloniais até os primeiros estudos sobre religiões afro-brasileiras. A partir da análise das obras desses intelectuais, observamos a sistematização de hierarquias demonológicas e a tentativa de justificar a presença de Exu e Pomba-gira nos rituais da Umbanda e da Quimbanda. O estudo evidencia como esse discurso promoveu tanto a continuidade do imaginário negativo em torno de Exu quanto relativizações dos conceitos de bem e mal, interpretando a prática do mal como um meio para a realização do bem. Ao final, conclui-se que a “Umbanda ocultista” não corresponde a uma prática ritual consolidada nos terreiros, mas a uma elaboração intelectual que ilustra o embate entre religiosidade popular, ocultismo europeu e as tensões sociais em torno das religiões afro-brasileiras no Brasil.
Between Exu and the Devil: The Discourse of “Occultist Umbanda” in Literature and the Continuity of Demonization
Abstract: This study analyzes the construction of a discursive field that we term “Occultist Umbanda,” formed between the 1950s and 1980s by Umbanda intellectuals such as Aluízio Fontenelle, Teixeira Neto, and José Bittencourt. Influenced by European esoteric currents and the occultist literature of Eliphas Levi, these authors developed narratives that associated Exu with the Christian Devil, reinforcing a long-standing tradition of demonizing this entity that can be traced from colonial accounts to the earliest scholarly studies of Afro-Brazilian religions. Through an analysis of their works, we observe the systematization of demonological hierarchies and an effort to legitimize the presence of Exu and Pomba-gira in the rituals of Umbanda and Quimbanda. The study demonstrates how this discourse both sustained a negative imaginary surrounding Exu and introduced relativizations of the concepts of good and evil, interpreting the practice of evil as a means toward the realization of good. Ultimately, the article concludes that “Occultist Umbanda” does not correspond to a consolidated ritual practice in religious communities, but rather to an intellectual elaboration that illustrates the tensions between popular religiosity, European occultism, and the social conflicts surrounding Afro-Brazilian religions in Brazil.
Keywords: Umbanda. Quimbanda. Exu. Occultism.
Entre Exu y el Diablo: El discurso de la “Umbanda ocultista” en la literatura y la continuidad de la demonización
Resumen: En esta investigación analizamos la construcción de un campo discursivo que denominamos “Umbanda ocultista”, conformado entre las décadas de 1950 y 1980 por intelectuales umbandistas como Aluízio Fontenelle, Teixeira Neto y José Bittencourt. Estos autores, influenciados por corrientes esotéricas europeas y por la literatura ocultista de Eliphas Levi, elaboraron narrativas que asociaron a Exu con el Diablo cristiano, reforzando una tradición de demonización de esta entidad presente desde los relatos coloniales hasta los primeros estudios sobre las religiones afrobrasileñas. A partir del análisis de las obras de estos intelectuales, observamos la sistematización de jerarquías demonológicas y el intento de justificar la presencia de Exu y Pomba-gira en los rituales de la Umbanda y de la Quimbanda. El estudio evidencia cómo este discurso promovió tanto la continuidad del imaginario negativo en torno a Exu como relativizaciones de los conceptos de bien y mal, interpretando la práctica del mal como un medio para la realización del bien. Finalmente, se concluye que la “Umbanda ocultista” no corresponde a una práctica ritual consolidada en los terreiros, sino a una elaboración intelectual que ilustra el enfrentamiento entre la religiosidad popular, el ocultismo europeo y las tensiones sociales en torno a las religiones afrobrasileñas en Brasil.
Palabras clave: Umbanda. Quimbanda. Exu. Ocultismo.
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