“Nós ainda existimos”: testemunhos (d)e resistências de mulheres camponesas e indígenas do Cerrado

“We still exist”: testimonials of resistances of peasant and indigenous women from Cerrado

  • Valéria Pereira Santos Universidade de Campinas - UNICAMP
  • Dernival Venâncio Junior Universidade Federal de Tocantins
  • Edir Augusto Benini Universidade Federal do Tocantins
Palavras-chave: Mulheres. Resistência. Agronegócio. Cerrado.

Resumo

Este trabalho diz respeito a resistência das mulheres do campo frente a expansão do agronegócio nos municípios de Campos Lindos, Goiatins e Barra do Ouro, região nordeste do Estado do Tocantins. O objetivo desse estudo é entender o que as mulheres denunciam em relação ao agronegócio e como têm sido ocupados os espaços de denúncias por elas. Este é um levantamento preliminar resultante de uma pesquisa bibliográfica que analisou a partir da teoria do ecofeminismo, os depoimentos das mulheres sobre os impactos do agronegócio da soja. A pesquisa aponta de forma preliminar que nos depoimentos as mulheres expressam um profundo sofrimento, resultado do “desassossego” da vida no campo causado pela expansão da soja, que provocou inúmeros casos de violência na disputa fundiária, o uso intensivo de agrotóxicos e o desmatamento do Cerrado. A conclusão que se faz é que nos poucos espaços que as mulheres têm para denunciar, elas reforçam a importância do “viver na terra” e negam o Matopiba como uma política de desenvolvimento que proporciona melhores condições de vida para as populações locais.

Resumen: Este trabajo estudia la resistencia de mujeres del campo a la expansión de la agroindustria en el área rural de las ciudades de Campos Lindos, Goiatins y Barra do Ouro, en la región nororiental de la província de Tocantins, Brasil. El objetivo general es comprender qué denuncian las mujeres en relación con la agroindustria y cómo han ocupado los espacios de denuncia. Se trata de una encuesta preliminar resultante de una investigación bibliográfica que analizó, con base en la teoría del ecofeminismo, los testimonios de mujeres sobre los impactos de la agroindustria de la soja. La investigación señala de manera preliminar que en los testimonios las mujeres expresan un profundo sufrimiento, resultado de la “inquietud” de la vida en el campo provocada por la expansión de la soja. Hecho este que provocó numerosos casos de violencia inserida en la disputa agraria, el uso intensivo de pesticidas y la deforestación del país. Se concluye que en los pocos espacios tienen para denunciar, las mujeres refuerzan la importancia de “vivir en la tierra” y niegan a MATOPIBA como política de desarrollo que pueda ofrecer mejores condiciones de vida para las poblaciones locales.

Palabras-claves: mujeres, resistencia, agronegócio, testimonio

 

Abstract: This work aims the resistance of peasant women in front of the expansion of agribusiness in Campos Lindos, Goiatins and Barro de Ourro municipalities, northeast region of Tocantins State. The objective of this study is to understand what women demand in relation to agribusiness and how they occupy those spaces.  This a preliminary setting that results from a bibliographic inquiry, which analyzed the testimonials of women about the impacts of soya agribusiness using the ecofeminism theory. The research point out in a preliminary manner that those women testimonials express a profound suffering. The result of a “concern” of country life caused by the soya expansion that aggravated numberless violence cases in land struggle, the intensive use of agrotoxics and Cerrado deforestation.  The conclusion is that in few spaces that women have to demand, they reinforce the importance of “living in land” and they deny Matopiba as a development policy that provide the best conditions of life to local populations.

Keywords: Women. Resistance. Agribusiness. Cerrado

Biografia do Autor

Valéria Pereira Santos, Universidade de Campinas - UNICAMP

Mestre em Demandas Populares e Dinâmicas Regionais pelo Programa de Pós-Graduação Demandas Populares e Dinâmicas Regionais da Universidade Federal do Tocantins (PPGDIRE/UFT). Agente da Comissão Pastoral da Terra.

Dernival Venâncio Junior, Universidade Federal de Tocantins

Doutor em História. Professor adjunto da Universidade Federal do Tocantins (UFT), atuando na graduação em História e no Programa de Pós-graduação em Estudos de Cultura e Território (PPGCULT) e no Núcleo de Pesquisa e Extensão em Saberes e Práticas Agroecológicas (NEUZA/UFT).

Edir Augusto Benini, Universidade Federal do Tocantins

Doutor em Educação. Professor da Universidade Federal do Tocantins (UFT), atuando no Programa de Pós-graduação Demandas Populares e Dinâmicas Regionais (PPGDIRE) e no Programa de Extensão Raios de Sol.

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Publicado
2020-09-03
Como Citar
Santos, V., Venâncio Junior, D., & Benini, E. (2020). “Nós ainda existimos”: testemunhos (d)e resistências de mulheres camponesas e indígenas do Cerrado. Élisée - Revista De Geografia Da UEG, 9(2), e922015. Recuperado de https://www.revista.ueg.br/index.php/elisee/article/view/10882